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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ATENA NA CONTEMPORANEIDADE

Em toda Europa e América a passagem do século XVIII para o XIX foi marcada pela emergência da corrente neoclássica, com uma novamente massiva recuperação de protótipos da Antiguidade clássica em todos os domínios da cultura e arte.
Os principais templos de Atena, o Partenon, o Erecteion e o templo de Atena Niké, todos na Acrópole de Atenas, se tornaram paradigmas para imitação em larga escala, tanto para a edificação pública como para residências privadas. Sob a influência do Iluminismo o mito de Atena permaneceu integrado à vida cultural do ocidente, mas operou-se uma importante mudança de foco em sua análise: ela continuou sendo vista como a patrona das artes e símbolo da sabedoria, da virtude e da razão, mas as alegorizações cristianizantes que vigoraram desde a Idade Média já não ocupavam mais o centro das atenções. Em seu lugar a ênfase se transferiu para suas associações com a cultura e as artes em si e com o mundo do pensamento político, como uma corporificação de altos ideais democráticos e cívicos. Segundo Deacy & Villing nenhum outro deus do panteão grego conheceu contemporaneamente tamanha popularidade quanto Atena ou sua encarnação romana, Minerva. Tornou-se uma presença constante na literatura e nas artes visuais do ocidente, sua imagem reapareceu em inúmeras cidades, instalada em edifícios públicos importantes, casas editoriais se colocaram sob sua égide, foi uma inspiração para líderes políticos, influenciou e associou-se a outras figuras simbólicas e gerou considerável bibliografia no campo dos estudos clássicos em geral e da arqueologia. No terreno particular da mitografia as conquistas realizadas pelos eruditos, especialmente entre o fim do século XIX e início do século XX, na reunião enciclopédica de informações sobre seu mito, culto, iconografia e outras, dispersas em várias fontes, permanecem até nos dias de hoje insuperadas e determinaram os rumos de toda a pesquisa subsequente.

Na França a presença de Atena se tornou tão forte que sobreviveu à destruição em massa de símbolos religiosos durante a Revolução Francesa, onde até mesmo imagens da Virgem, Cristo e os santos cristãos foram objeto de depredação.
Agora recebendo o nome de Liberdade, Atena transfigurada tornou-se a nova divindade da República. Uma estátua sua foi instalada na Praça da Revolução, onde estava a guilhotina, e sua simbologia ficou tão ligada à política nacional que foi adotada, depois da Revolução, como protetora da academia de Ciências Morais e Políticas.
Assim como Atena se tornou popular entre os franceses, conheceu grande divulgação na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Na Inglaterra ilustrações neoclássicas de Atena inundaram a literatura mesmo em reedições de obras mais antigas como as de Shakespeare e Milton, uma prática que se estendeu até o período vitoriano, lado a lado com a continuidade das representações de Britannia como Atena.
Nos Estados Unidos, em 1792 um busto de Atena como a Padroeira da Liberdade Americana foi instalado debaixo do púlpito dos oradores do Congresso em Filadélfia. Em Kansas City chegou a ser instituído um festival anual em homenagem à deusa, o Sacerdotes de Palas, com grandes festejos que comemoravam o progresso e incluíam um cortejo de carros alegóricos e a distribuição de souvenirs com a sua imagem.
Ela se tornou um modelo de feminilidade e um ícone de um nacionalismo místico para os Confederados durante a Guerra Civil norteamericana, e segundo Carter "não havia um sermão que não iniciasse e terminasse com um tributo em sua honra, raramente um discurso de bravura não abria e encerrava com o barulho dos escudos e o floreio das espadas de sua glória… as tropas confederadas entravam em batalha na convicção mística de que ela estava combatendo ao seu lado".
Em 1863 uma estátua da Liberdade foi colocada no topo do Capitólio em Washington, e outras foram instaladas em vários locais de importância cívica, novamente combinando atributos de Atena com os da Liberdade, a Verdade, a Fé ou outras virtudes, e incorporando uma simbologia ligada à Roma republicana e à Atenas democrática, às vezes mudando sua lança por uma espada, uma tocha ou outros elementos, ou tendo um barrete frígio na cabeça. Um dos exemplos mais conhecidos dessa simbologia eclética, que misturava livremente influências da Antiguidade, do Neoclassicismo e do Romantismo nacionalista, é a Estátua da Liberdade de Nova Iorque. Incorporou ainda um outro elemento iconográfico: a balança, representando a justiça, recuperando uma tradição que remontava à Roma Antiga e Bizâncio, como já foi descrito.

No mesmo período estátuas de Atena foram instaladas em vários importantes palácios e edifícios públicos europeus e de outros países. Citando apenas alguns exemplos, está num dos relevos do Arco do Triunfo de Paris, num dos frontões do Palácio do Louvre Napoleão I, sob o aspecto de Gênio da França, aparece invocando a proteção de várias divindades, incluindo Atena, uma cópia da Atena Giustiniani foi colocada nos jardins monumentais do Peterhof em São Petersburgo, uma grande estátua foi erguida diante do parlamento da Áustria, outra está na Academia de Atenas, instalada sobre uma coluna flanqueando a entrada principal, fazendo um par com uma estátua de Apolo no outro lado,foi colocada nos jardins do Schlossbrücke em Berlim, e nas fachadas do Círculo de Belas Artes de Madri, e do Ateneu de Londres. Nesta cidade ela também foi mostrada em um monumento em homenagem a Horatio Nelson na Catedral de São Paulo, onde ela aponta para o herói indicando às crianças que estão junto a si o caminho do patriotismo e das virtudes militares.
Na capital de Cuba uma estátua sua está no topo do Capitólio local.

John Ruskin, que foi um entusiasta de Atena, disse que ela representava para os românticos de sua geração os atributos da arte, da literatura e das virtudes cívicas, ela era a sabedoria política e secular ao ensinar a moralidade e a indústria aos cidadãos, e era a sabedoria estética porque guiava as artes em direção à moral, à sutileza e à verdade superior, e por isso construía homens de caráter nobre e bom. Disse mais: era o fogo da alma, um guia à paixão moral, o espírito da vida, diretora da vontade humana, radiante de todas as virtudes, uma digna companheira para a Virgem Maria.
A sabedoria como uma Mulher ideal, muitas vezes fundindo Atena a outras mulheres sábias como a pitonisa, as profetisas, as sibilas, Sophia, Maria, Io e Cassandra, aparecera na obra de vários literatos destacados desde o fim do século XVIII, como Madame de Staël, Elizabeth Barrett, George Sand, Robert Browning, Lord Tennyson, Charles Dickens, George Eliot e Harriet Martineau, iniciando um processo de valorização da mulher na sociedade patriarcal da época e contribuindo para a construção de uma imagem da mulher artista como uma sábia, numa época em que a criação artística ainda estava reservada preferencialmente aos homens e posta sob a tutela de Prometeu.
Outro exemplo foi o da famosa dançarina Isadora Duncan, que se inspirou nos mitos de Afrodite e Atena para a criação de suas coreografias revolucionárias, que tiveram grande impacto sobre a dança moderna. Seus figurinos, de talhe neoclássico, também eram concebidos como releituras das representações antigas daquelas deusas.


Palas Atena de Arno Breker, escultor ligado ao nazismo.




Detalhe da Atena Lemnia, atribuída a Fídias, evidenciado sua aegis com a cabeça da Medusa. Cópia do Museu Pushkin.




.A figura da deusa também foi incorporada à literatura judia alemã desde o início do século XIX, sendo considerada patrona de Berlim e comparada a Raquel, heroína judia dos tempos antigos, tornando-se um modelo de virtude feminina de larga difusão, uma mulher alemã desenvolvida em sua forma e potencial mais altos, e mais, um epítome da história recente de toda a Alemanha. Essa simbologia penetrou no século XX e foi assimilada também pelo regime nazista, época em que houve grande interesse pela cultura clássica, mas neste momento o conceito de "mulher judia", na óptica nazista, se tornou carregado de associações eróticas ameaçadoras para a desejada purificação da raça alemã dos elementos não-arianos. Elas se tornaram então alvos de perseguição porque podiam ser mães e multiplicar o número de "seres degenerados", sendo mortas ou esterilizadas em massa.
Além disso, a estética idealista da arte grega clássica se tornou um modelo preferencial, interpretada no espírito de glorificação da nação e do povo germânico. Numa gigantesca parada cívica que foi organizada em 1937, composta por cerca de cinco mil pessoas vestidas em trajes históricos, foi carregada uma monumental cabeça de Atena, junto a outra da Virgem Maria ao lado de símbolos nazistas. Na época vários pintores e escultores alemães empregaram a imagem da deusa em suas criações politicamente engajadas com os propósitos do Nazismo.
Por outro lado, Atena, segundo Hahn, aparece com impressionante assiduidade em relatos produzidos nesta época por mulheres judias alemãs quando descreviam a si mesmas, e também na literatura masculina a respeito dessas mulheres.

O mito de Atena se tornou um tópico atraente para análise dos escritores interessados na psicologia desde que Freud utilizou a simbologia da deusa como elemento importante para a sua elaboração da teoria dos gêneros, bem como a da Medusa, para a do complexo de castração. Para Melanie Klein Atena foi uma figura central em sua ambivalente discussão do complexo de Édipo. Lawson, da escola junguiana, interpretou a história da morte da Medusa e a instalação de sua cabeça na aegis de Atena como uma representação do processo de conquista heróica das forças do inconsciente, colocando-as a serviço da sabedoria ou da consciência superior, e Bernstein, da mesma escola, afirmou que a maior função de Atena na mitologia grega é moderar a impetuosidade narcisista de Ares, colocando a guerra a serviço da consciência moral.

O prestígio de Atena ao longo dos séculos desde o Renascimento até a contemporaneidade se prova pela quantidade de artistas que a tomaram como tema de suas obras. Citando-se apenas alguns mais conhecidos, entre os que a representaram em pintura estão Francesco del Cossa, Botticelli, Paris Bordone, Parmigianino, Hans Rottenhammer, Artemisia Gentileschi, Bartholomäus Spranger, Jacques-Louis David, Anton Raphael Mengs, Gustav Klimt, Franz von Stuck, Max Klinger, Pierre-Auguste Renoir, Ernst Ludwig Kirchner.


Na escultura, Antonio Lombardo, François Gaspard Adam, Johann Gottfried Schadow, Bertel Thorvaldsen e Arno Breker, e foi personagem de composições musicais, entre óperas e bailados, de Claudio Monteverdi, Antonio Cesti, Francesco Cilea, Ernst Krenek, Michael Tippett e Iannis Xenakis.Na literatura em poesia ou prosa apareceu em obras de William Shakespeare (que em um soneto declarou ser Atena a sua musa), John Milton, Heinrich Heine, Paul Celan, Oscar Wilde, William Butler Yeats,Kostís Palamás, Richard Wilbur, Herman Melville e Alfred Tennyson. Sua imagem figurou também em brasões, selos, moedas e condecorações, está no emblema de diversas instituições acadêmicas como a Universidade Técnica de Darmstadt e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, é o nume tutelar da sociedade acadêmica Phi Delta Theta e seu elmo faz parte do brasão da Academia Militar norteamericana de West Point.




 Anos recentes
Nas últimas décadas surgiram estudos eruditos de seu mito na óptica estruturalista, explorando suas relações com as outras divindades gregas; novas descobertas e conclusões apareceram no que tange à origem do mito e à evolução/distribuição geográfica de sua iconografia, culto, atributos, sincretismos e influência cultural, e as repercussões de sua figura simbólica se expandiram para diversas outras áreas da vida contemporânea.[206] No campo da política, Papadopoulos considerou o estudo do par arquetípico Atena-Ares útil para a compreensão da dicotomia contemporânea sobre a guerra e a paz no nível das relações internacionais,e Münkler colocou Atena como um símbolo da identidade e da cultura estratégica de toda a Europa, preocupada com resultados e não com o amor de Afrodite, mas que une competência militar com uma sabedoria civilizada, e promove o progresso e a pesquisa científica.
Sua imagem tem sido usada até no campo da análise da dinâmica econômica, identificando períodos de reorganização de estruturas e mudança acelerada de paradigmas como fases onde a influência de Atena é especialmente nítida.Nesse contexto, Mandy descreveu sua qualidade principal como aquela que é capaz de resolver problemas, e Allen a relacionou com as capacidades de planejamento cuidadoso, colaboração, senso de oportunidade e à questão da preservação de valores humanos dentro da prática econômica. Há poucos anos Martin Bernal lançou um livro intitulado Black Athena: the Afroasiatic roots of classical civilization (A Atena negra: as raízes afroasiáticas da civilização clássica), que causou enorme polêmica, propondo uma origem afroasiática para a cultura clássica e por extensão européia, da qual Atena foi apresentada como símbolo.

Diversos autores têm interpretado, com conclusões divergentes ou polêmicas, a complexa sobreposição de atributos masculinos e femininos de Atena, descrevendo-a ora como uma mulher forte, ora como andrógina e até sugerem uma inclinação ao lesbianismo. Conforme a análise, ela pode representar uma negação da feminilidade subjetiva e uma reiteração do princípio masculino e da estrutura social patriarcal. Por outro ela pode ser uma negação do princípio masculino quando rejeita a união a um esposo, e negando o seu oposto anula sua própria identidade feminina.Para Blundell Atena transcende as classificações estanques - ela em muitos pontos se aproxima da natureza das pessoas comuns, mas em vários outros ficam evidentes sua diferença em relação às mulheres, tendo qualidades claramente masculinas, e sua diferença em relação aos homens, porque afinal ela é uma mulher. Na opinião de Etzkowitz, Kemelgor & Uzzi Atena personifica os dilemas que as mulheres de ciência encontram em sua vida, diante da expectativa generalizada de que as mulheres sejam capazes construir uma carreira sólida às expensas de sua vida privada e familiar, além de enfrentarem muitos preconceitos, discriminação e ostracismo num mundo profissional altamente competitivo modelado e dominado por homens, tanto na pesquisa pura como na docência, da mesma forma como Atena tinha de lidar com um contexto de predomínio masculino sem formar um núcleo familiar seu.Susan Deacy, sintetizando as opiniões correntes, disse que é surpreendente a variedade de leituras de seu mito, em particular as feitas dentro da linha de pensamento feminista:

"Por um lado, nas últimas décadas tem sido lançada uma multiplicidade de "projetos Atena" onde a deusa serve como uma espécie de mentor para organizações educacionais que servem para promover o envolvimento de mulheres e meninas em campos tais como a ciência, matemática e tecnologia. Enquanto que esses projetos parecem encontrar um lugar para as mulheres dentro de áreas tradicionalmente dominadas por homens, a outra tendência tem sido considerar Atena uma traidora de seu próprio sexo, colocando-se ao lado de homens às expensas das outras mulheres. A teoria feminista tem apresentado Atena como o arquétipo da mulher forte que, longe de abrir caminho para outras mulheres terem sucesso, assegura que ela permaneça como uma exceção. Isso tem dado uma dimensão mítica às acusações que mulheres dominantes na vida pública e política têm sofrido ao longo de toda a história… "

Símbolo astronômico e astrológico do asteróide Palas.Antigamente, segundo informou Heródoto, Atena estava associada ao signo de Capricórnio, porque se acreditava que a sua couraça fora feita com a pele de um bode, mas na astrologia contemporânea a deusa tem servido de motivo temático para outras associações, ainda mais depois de um asteróide com seu nome ter sido incorporado aos planetas na carta astrológica, regendo variavelmente, conforme os autores, aspectos de inteligência, justiça, liberdade, intuição, misericórdia, verdade, valores, organização, competência, estrutura, construção da carreira profissional e integração entre mente e corpo.
Tem sido também ligada aos signos de Virgem, por uma relação direta com sua própria virgindade, regendo entre outras coisas aspectos de intelecto, consciência, pureza e inteligência e sua expressão na matéria,e ao de Libra, através de seu atributo da justiça, dando aos nativos um senso de equilíbrio, bom julgamento e harmonia, e a habilidade de entender ambos os lados de uma disputa.
Na astrologia esotérica foi considerada regente do signo de Escorpião e dos aspectos de renovação e vitória sobre a morte,no tarô corresponde à carta da Rainha de Espadas, e seus atributos já foram interpretados à luz da ioga em relação e ao controle do pensamento e da respiração.


Um altar neopagão grego com bustos de Atena e Apolo.Dentro das correntes religiosas de tendências sincréticas, revivalistas e/ou esotéricas que vêm ganhando grande número de adeptos, como o Dodecateísmo, o Xamanismo e outras, Atena deixou de ser considerada um mero princípio abstrato ou uma alegoria, renascendo como uma entidade viva, uma grande potestade espiritual, e vem recebendo novamente verdadeiro culto.Elizabeth Clare Prophet a descreveu como uma mestra ascensionada que corporifica a consciência da Verdade em nível planetário, sendo uma das responsáveis pela administração do karma; a Wicca ressuscitou, adaptando-os, vários ritos de Atena, como a Plynteria e a Skirophoria; e outras correntes neopagãs estão atualmente praticando uma forma renovada da antiga religião grega como uma alternativa às tradições judaico-cristãs, num espírito de equiparação valorativa do princípio feminino ao masculino, de respeito à natureza e à diversidade cultural do mundo contemporâneo, que, não obstante, têm gerado muita polêmica em seu redor.Na Grécia contemporânea o seguidores do Neopaganismo têm sido especialmente ativos; conseguiram reverter legalmente o antigo banimento do Paganismo em 2006 e conquistaram o seu reconhecimento oficial como religião em 2007.O Supreme Council of Ethnikoi Hellenes, fundado em 1997, é um dos grupos que mais tem atraído a atenção, alegando ter cerca de dois mil seguidores e cem mil simpatizantes, incluindo ramos em vários outros países.

Nos últimos anos Atena multiplicou suas aparições na sociedade dando seu nome a periódicos acadêmicos, centros de saúde, cultura, ciência e arte, a um navio ao asteróide 2 Palas, a uma família de foguetes, ao conjunto de instrumentos científicos das sondas de pesquisa em Marteao cluster de computadores do MIT ao banco de dados bibliográficos da UNESP a um prêmio de cem mil euros para pesquisa científica patrocinado pela The Netherlands Organisation for Scientific Research a um prêmio de excelência profissional de Pittsburgh, e a um programa da União Européia para financiamento de operações militares, entre muitas outras atribuições.

Atena penetrou largamente até na cultura popular, sendo personagem do mangá e anime Os Cavaleiros do Zodíaco, do universo Marvel Comics, do videogame The King of Fighters, do seriado Stargate SG-1, e de filmes de cinema.
Nessas produções Atena geralmente é apresentada como uma guerreira, mas pode ter poderes e habilidades que não são descritos na tradição erudita, como o domínio das artes marciais chinesas e poderes psíquicos em The King of Fighters, pode participar de ações onde faz contato com personagens de outras mitologias, como é o caso da Athena Panhellenios do universo Marvel ou pode aparecer em transposições do mito para o tempo presente, como acontece nos filmes Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief e no drama coreano Athena: Goddess of War.Shiro Masunume, criador do videogame japonês Appleseed, incluiu Atena e outros deuses gregos junto de personagens tipicamente japoneses, e disse que "hoje em dia é impossível escrever ou mesmo conceber a cultura popular japonesa sem envolver muitas coisas do resto do mundo".Atena, por fim, emprestou seu nome a pessoas, cidades, casas de espetáculo, hotéis, empresas e produtos comerciais.
Uma pesquisa simples para "Athena" na internet com o buscador Google levantou mais de 26 milhões de resultados, e mais de nove milhões para a versão em português, "Atena".

Fonte: http://pt.wikipedia.org

ATENA NA IDADE MODERNA

A frutificação do humanismo medieval deu-se no Renascimento, quando a igreja perdeu parte de seu poder e a sociedade se abriu para uma maior laicização, ao mesmo tempo em que o interesse pela cultura da antiguidade clássica atingia um ponto próximo da obsessão, com uma intensa recuperação de textos e relíquias artísticas da antiguidade, a volta ao estudo do grego e a disseminação de referências mitológicas por todas as áreas da cultura, arte e ciência. O amálgama entre Cristianismo e Neoplatonismo se tornou íntimo e complexo, particularmente na Itália, e deu origem a uma rica proliferação de representações na arte e obras interpretativas em filosofia que incorporavam livremente também tradições esotéricas como a astrologia, a magia e a cabala, todas buscando uma explicação mais racional para os fenômenos da natureza, a vida humana e os dogmas da religião.


Um bom exemplo do estado de coisas foi a decoração da Capela dos Planetas no Templo Malatesta em Rimini, uma igreja católica, onde aparecem em tranquilo convívio santos cristãos, símbolos astrológicos e divindades grecorromanas, incluindo Atena. A educação nos clássicos e na mitologia pagã deixava de ser ameaça à vida do homem cristão renascentista, ao contrário, agora era uma fonte de prestígio e passava a fazer parte da linguagem intelectual e artística corrente. Ataques contra essa tendência massiva de fato apareceram, mas foram exceções, uma vez que até mesmo os altos prelados católicos buscavam e encorajavam o mesmo tipo de educação.
Neste contexto, não foi surpresa a presença de alegorias mitológicas nas inscrições, panóplias e arcos triunfais levantados para as comemorações da coroação do papa Leão X em 1513, onde figuravam conspicuamente Atena e Apolo ao lado de outras representações que o mostravam como o novo Leão de Judá, um dos títulos do Messias.


Marcantonio Raimondi: O julgamento de Páris, gravura, c. 1517. Museu Britânico.
Maria de Medici por Paul Rubens, 1622.Ao mesmo tempo os antigos mitos recebiam leituras inovadoras, atribuindo-lhes novos significados.
 Neste momento Atena, ao lado de Ártemis, assumiu um papel destacado como fonte de sabedoria e deusa da Razão, influenciando fortemente também a ideologia do amor, aqui dialogando com Afrodite e buscando um termo médio entre os excessos idealistas e castos do amor cortês e as demandas da vida conjugal, onde a sexualidade não pode ser ignorada.
Num período em que o corpo humano voltava a ser admirado por sua beleza, sendo o homem considerado o centro da Criação e imagem da Divindade, coube a Marcantonio Raimondi introduzir em c. 1517 uma grande novidade em sua iconografia, mostrando pela primeira vez a deusa nua e abrindo caminho para uma renovação de larga descendência em suas representações, em geral aproveitando-se como tema o concurso de beleza julgado por Páris, mas também outros episódios de seu mito.

Em outras áreas, atribuiu-se-lhe o patronato da filosofia e também se estabeleceu sua ligação com a paz, a harmonia social, a liderança política e o bom governo, sendo retratada ao lado de dinastas e condottieri, ou estes lhe tomavam atributos, o que lhes emprestava prestígio e legitimava o seu status social e poder como líderes iluminados, pacificadores e promotores da civilização e das virtudes. O simbolismo de Atena foi entremesclado também com os da deusa romana Pax (Paz) e da virtude cardeal Prudência, além disso incorporando em suas imagens às vezes o elmo ou a armadura a seus pés, em chamas, significando a extinção da guerra. Entretanto, isso não lhe retirava mérito militar, continuando a representar aquela que dava bons conselhos na guerra, conduzia à vitória, inspirava aos atos de heroísmo pessoal e coletivo e infundia nas mulheres a coragem, a sabedoria e o fogo da virtude. Bons exemplos destas associações foram as medalhas e retratos italianos ligando Atena à Casa de' Medici, e a série de pinturas de Vasari, que fundiu com sutileza traços de Atena e de Afrodite para criar suas caracterizações de Judite, o que lançou as bases de fértil iconografia pelos séculos adiante. Por fim, Atena firmou uma ligação com a verdade, a ciência, o comércio, o aprendizado, as academias e as artes em geral, especialmente em seus aspectos científicos e intelectuais.

Ao longo dos séculos XVI e XVII o potencial simbólico de Atena/Minerva permaneceu sendo explorado pelas realezas européias, ora para a glorificação também de mulheres à testa dos reinos. Ela se tornou uma imagem comum associada a regentes francesas como Catarina de' Medici, Maria de' Medici e Ana de Áustria, louvadas como protegidas da deusa e retratadas ostentando seus atributos, uma frequência explicada pelo fato de essa associação minimizar o impacto de uma governante mulher em um país onde a lei sálica as impedia de assumir o trono por direito próprio.

Maria de Medici por Paul Rubens, 1622.

Na conhecida série de pinturas de Rubens sobre a vida de Maria de' Medici Atena aparece como sua protetora e instrutora. Na última obra da série Maria se torna quase uma encarnação da deusa guerreira, aparecendo de elmo à cabeça, com uma armadura aos pés, canhões ao fundo, carregando uma Niké na mão direita e na esquerda um cetro que mais parece uma lança. O seio à mostra, porém, enfatizava sua maternidade.
Elizabeth I da Inglaterra foi apresentada como "a nova Minerva", e durante o reinado de Jaime I Atena passou a identificar a própria nação britânica, suplantando as identificações com Britannia ou Astréia, os antigos numes tutelares da nação. Mais tarde, no século XVIII, a própria Britannia já havia incorporado a iconografia de Atena. Entretanto, adaptando-se à realidade local, Atena/Britannia em vez de uma lança costuma ostentar um tridente, símbolo de Posídon, o deus dos mares, e por consequência da Grã-Bretanha como ilha e potência naval. Esta simbologia permaneceu em alta até meados do século XX, muitas vezes empregada também com intenções satíricas.

ATENA NA IDADE MÉDIA

Atena na pós-antiguidade

Idade Média

Embora tidos como verdadeiros seres vivos, cuja existência era real, desde o século VI a.C. se faziam críticas às descrições literárias dos deuses engajados em comportamentos violentos ou de moralidade duvidosa, como muitas vezes apareceram em Homero e Hesíodo, e iniciou-se uma tradição de se interpretar suas ações numa leitura alegórica, como uma alternativa à interpretação puramente histórica, fundando-se a mitografia. Os mitos foram racionalizados e entendidos como alegorias de forças da natureza e do cosmos, ou como movimentos da alma humana, ou se os relacionavam a determinadas partes e funções do corpo. Atena materializava-se na sabedoria opondo-se a Ares, expressão da insensatez; Zeus se tornava a mente, enquanto que Atena era a habilidade artística.[119] Ela também estava relacionada ao crânio, de onde nascera, e à respiração, que se acreditava estar ligada à função do pensamento, e relatos antigos referem sua associação, em localidades isoladas, ao céu claro, à aurora, ao éter, ao trovão, ao relâmpago, aos olhos, ao sol ou à lua.
Na era romana se popularizou uma outra interpretação, chamada evemerismo, que fazia dos deuses homens e mulheres históricos, cujos feitos haviam sido magnificados pela tradição, acabando por serem divinizados. A abordagem alegórica dos textos dos poetas canônicos e dos mitos que eles relatavam frutificou ao longo de vários séculos, até que o Cristianismo entrasse em cena, causando uma dissociação entre os métodos mitográficos e sua substância e objeto, com duas consequências de largo alcance. A primeira, dizendo respeito aos métodos, nasceu das acirradas controvérsias teológicas entre judeus e cristãos e entre cristãos e pagãos, permitindo aos apologistas adaptarem para o Judaísmo ou o Cristianismo o método de racionalização dos mitos clássicos, preservando-os para a mitografia medieval, quando as aparentes imoralidades do próprio Velho Testamento foram postas em evidência e alegorizadas. O segundo resultado, relativo ao conteúdo dos mitos, foi imprevisto pelos escritores cristãos, pois ao atacarem o Paganismo na tentativa de erradicá-lo - no que foram por fim bem sucedidos -, comparando-o à religião pagã, preservaram para a posteridade muitas passagens dos mitos clássicos e suas interpretações pelo simples fato de as descreverem. Por outro lado, a corrente evemerista foi aproveitada pelos escritores cristãos para atacarem o politeísmo como um erro doutrinal básico.

Atena não foi exceção na campanha difamatória cristã. Como exemplo, Clemente de Alexandria criticou a multiplicidade de versões de seu mito como uma evidência da alegada falsidade do Paganismo, e condenou a imoralidade de uma das versões onde ela aparecia como filha do gigante Palas, tendo depois assassinado seu pai e o esfolado para fazer com a pele sua couraça. Outros escritores distorceram ainda mais esse episódio transformando-o em uma história de incesto e mutilação.
Em 391 o imperador Teodósio I baniu oficialmente o Paganismo, mas por algum tempo isso teve relativamente pouco efeito sobre o vasto acervo acumulado de arte pagã, e embora a tendência tenha sido de entregar templos e decorações à sua própria sorte, entrando eles em um estado de progressiva degradação, até o século VI houve tentativas de se preservar várias edificações e obras importantes como um testemunho da antiga glória do Império Romano, e, mais do que isso, de fato os princípios formais da arte pagã foram adotados em larga medida, mudando-se apenas os temas, para a fundação da arte cristã. Mas dali em diante a política oficial mudou, e então toda a arte pagã sofreu um destino inglório, e a depredação de templos, esculturas, pinturas e relevos se tornou generalizada. Mármores foram transformados em material de novas construções, bronzes foram fundidos para confecção de armas, e obras em ouro e prata foram também fundidas para recuperação do material precioso, perdendo-se desta maneira a maior parte da iconografia antiga de Atena.




Igreja de Santa Maria sobre Minerva, Assis, um templo de Minerva transformado em igreja católica.




 

De qualquer modo, a herança pagã não podia ser erradicada de todo, pois estava na base da cultura européia, e muito de suas tradições, filosofia e arte, se não nos temas pelo menos em essência e forma, conseguiu sobreviver envergando o novo traje do Cristianismo e servindo a um novo contexto. Atena permaneceu, a despeito de ataques, como um dos deuses antigos de maior apelo simbólico para as eras posteriores. Neste sentido o imaginário formado em torno da Virgem Maria é um exemplo significativo, pois ela passou a ocupar um papel semelhante ao que Atena ocupava na mitologia: uma mulher poderosa dentro de um sistema patriarcal, incorporando vários atributos da deusa. Diversos dos antigos santuários de Atena ou Minerva foram transformados em igrejas marianas e a iconografia primitiva da Virgem ocasionalmente a mostra com um aspecto militar. No século IV ela chegou a ostentar a aegis de Atena em seu peito, incluindo a cabeça da Medusa, O próprio Partenon foi transformado, em data obscura, em santuário mariano dedicado a Nossa Senhora de Atenas. A tradição se repetia, pois o povo passou a chamar Maria simplesmente de Parthenos, a virgem, assim como fizera séculos antes com sua antiga deusa.
Também passou a ser uma protetora das cidades, e uma crônica do século VII afirma que habitantes de Constantinopla, então ameaçada por inimigos, a viram a aparecer sobre seus muros brandindo uma lança e exortando o povo à resistência. Provavelmente essa assimilação foi enfatizada quando se transferiram as estátuas de Fídias que estavam na Acrópole de Atenas para a capital bizantina.

A partir do relato de seu nascimento da cabeça de Zeus, símbolo da mente divina, Atena permaneceu viva na tradição gnóstica e em outras correntes de esoterismo cristão medieval - herdeiras da filosofia clássica e helenística e inspiradas em textos bíblicos como o Cântico dos Cânticos, o Livro da Sabedoria e o Eclesiastes - transformada em Mater Magna (Grande Mãe) ou, mais comumente, Sophia, a sabedoria divina, personificações do aspecto feminino e materno de Deus e tidas como o poder criativo por excelência, o verdadeiro demiurgo do universo e o objeto primordial do desejo humano.
Embora o conceito esotérico de Sophia tenha sido combatido pelo Cristianismo ortodoxo, especialmente por sua alusão à maternidade e feminilidade de Deus, não obstante reapareceu constantemente na literatura mística medieval não só cristã, mas alimentando também a simbologia da Cabala judaica.
Outro exemplo foi a transferência de atributos de Atena para os retratos de algumas das primeiras imperatrizes bizantinas, continuando um costume que havia sido iniciado durante a sincretização de Atena e Minerva em Roma. A imagem de Atena/Minerva foi aplicada ademais a pesos de balanças romanas e depois bizantinas, alguns deles de refinado acabamento artístico, usados por mercadores cristãos até o século VII e possivelmente o século VIII, fato justificado por uma expansão do seu atributo da sabedoria: sabedoria → julgamento justo → medição exata. Há com isso boas razões, como afirmou McClanan, para dizer que Atena sobreviveu como um influente símbolo cultural depois da supressão do Paganismo.




 
Atena em ilustração de Remígio de Auxerre em seu comentário de Capella. A legenda identifica Atena como Virgo armata descens, rerum sapientia, Pallas (Desce Palas, a virgem armada, a sabedoria das coisas). Século IX. Biblioteca Nacional da Áustria.








 
Camafeu com as figuras de Posídon e Atena, século XIII. Biblioteca Nacional da França.










Por volta dos séculos IX-X escritores cristãos passaram a dar ao legado da antiguidade pagã uma apreciação mais positiva, aplicando-lhe uma leitura alegórico-moralizante impregnada de Estoicismo e Neoplatonismo e inserida dentro da órbita cristã, ainda que se perpetuasse a prática da condenação do Paganismo como um erro fundamental. Escoto Erígena, nascido no século IX na Irlanda, que na época era a única região européia fora da Grécia onde ainda se estudava grego, traduziu várias fontes originais e descreveu Atena como virtuosa e aquela cuja sabedoria está em perpétua renovação, sem corromper-se jamais. Remígio de Auxerre, também da escola irlandesa, influenciado diretamente por Erígena e autor de numerosas glosas e comentários sobre os clássicos, focou atenção sobre as deusas grecorromanas, em particular sobre Atena, enaltecendo longamente a sua sabedoria que não conhece mácula ou termo, a sua virgindade, a sua completude, a sua integridade e sua descendência de Zeus, segundo os estóicos a Alma do Mundo. Para ele Atena representava a memória e o engenho, todos incendiados pelo fogo divino e eterno, a sabedoria mais pura e mais alta, apresentando a deusa como uma intermediária entre o céu, imagem do macrocosmo, e a terra, o microcosmo, expressando na terra aquela sabedoria sob a forma das artes. O caráter guerreiro de Atena era um sinal da força da sabedoria, sugerindo que o conhecimento é o melhor caminho para a paz. Ambos os escritores trabalharam sobre o livro De nuptiis, de Martianus Capella, um escritor pagão do século V que foi um dos primeiros organizadores do sistema das artes liberais, tão importante para a educação medieval, dando um lugar destacado a Atena como senhora da sabedoria, à qual serviam todas as artes. Com seus comentários Erígena e Remígio, em linhas gerais repetindo a abordagem de Capella, introduziram Atena como uma figura simbólica de relevo no pensamento cristão. Levando as idéias de Remígio adiante, o Segundo Mitógrafo do Vaticano, um escritor anônimo que pode ter sido o próprio Remígio ou alguém de seu círculo, apresentou Atena como um ideal de vida monástica, cujas ambiguidades sexuais transcendiam a problemática do gênero singular.

No século XI Guillaume de Conches expandiu e aprofundou o gênero mitográfico, sendo o primeiro a estudar de forma consistente e integrada os deuses e o problema da sexualidade humana dentro da vida de contemplação religiosa, tentando aproximá-los num contexto filosófico coerente que levava em séria conta a questão do corpo feminino. Ele analisou de maneira original o episódio do concurso de beleza de que Atena participou centrando-se no efeito da frustração do desejo sexual masculino, e entendendo o corpo sexualizado da mulher como um signo cultural, isso numa época em que o monasticismo estava em alta, com seus ideais de negação do corpo, abstinência e racionalização do desejo, considerados necessários para os objetivos espirituais. Para ele Atena era a imagem da vida contemplativa, a mais elevada, e Páris, o juiz do concurso e símbolo da vontade humana, como a maioria dos homens, entregando o prêmio a Afrodite, a vida de volúpia, faz uma escolha que no fundo lhe é prejudicial.

Na mesma época os estudos clássicos já estavam bastante avançados em várias partes da Europa, como no Império Bizantino - onde surgiu uma espécie de culto literário dos antigos mitos, sendo aceita consensualmente, e já sem ressalvas piedosas contra o Paganismo, a leitura das narrativas pagãs como símbolos imbuídos de verdades profundas, válidos dentro da cultura cristã, e capazes de explicar vários aspectos do mundo - mas especialmente no norte da França, através da atuação das primeiras universidades, onde se lançou as bases da filosofia humanista, de larga influência subsequente no pensamento renascentista e na arte do período.
Com essa popularização da tradição pagã, escassamente distinguíveis, Atena ou Minerva começaram a reaparecer no final da Idade Média em representações literárias e visuais em vista do seu potencial simbólico.
Pierre Bersuire, engajado na cristalização do ideal cavaleiresco, em seu Ovídio Moralizado mostrou Atena como aquela que concede ao rei, o perfeito cavaleiro, as graças e virtudes necessárias para o estabelecimento de uma nova Idade Dourada, armando-o com o escudo cristalino da prudência, o espírito cristão e a iluminação espiritual. Bersuire foi de influência sobre Chaucer, que a apresentou em seus Contos de Canterbury como harmonia, unidade, fortaleza, a sabedoria que traz a paz de Deus e como a paz que emerge do conflito; Robert Holcot reiterou sua ligação com as artes liberais, louvou o caráter incorruptível de sua sabedoria e disse que ela era vestida por três túnicas: a gramática, a retórica e a dialética. Boccaccio escreveu que Minerva possuía um elmo para significar que os conselhos de um homem sábio permanecem ocultos e bem defesos; usava uma couraça já que o homem sábio está sempre precavido contra os golpes da Fortuna, e era armada com uma longa lança para significar que as ações do homem sábio têm um longo alcance, e suas invenções eram um benefício para a civilização. Como um homem de seu tempo, Boccaccio resistia em acreditar que tantas qualidades pudessem ser encontradas em uma mulher real, e considerava até potencialmente perigosa uma mulher que exibisse dotes intelectuais publicamente, ainda que louvasse as que o faziam no círculo privado de seus lares, mas não hesitava em aplaudir sua exibição pelo homem, como fica explícito em sua repetida alusão ao homem sábio.

ATENA

Atena (no grego ático: Αθηνά, transl. Athēnā ou Aθηναία, Athēnaia; ver seção Nome), também conhecida como Palas Atena (Παλλάς Αθηνά) é, na mitologia grega, a deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia, das artes, da justiça e da habilidade. Uma das principais divindades do panteão grego e um dos doze deuses olímpicos, Atena recebeu culto em toda a Grécia Antiga e em toda a sua área de influência, desde as colônias gregas da Ásia Menor até as da Península Ibérica e norte da África. Sua presença é atestada até nas proximidades da Índia. Por isso seu culto assumiu muitas formas, além de sua figura ter sido sincretizada com várias outras divindades das regiões em torno do Mediterrâneo, ampliando a variedade das formas de culto.

A versão mais corrente de seu mito a dá como filha partenogênica de Zeus, nascendo de sua cabeça plenamente armada. Jamais se casou ou tomou amantes, mantendo uma virgindade perpétua. Era imbatível na guerra, nem mesmo Ares lhe fazia páreo. Foi padroeira de várias cidades mas se tornou mais conhecida como a protetora de Atenas e de toda a Ática. Também protegeu vários heróis e outras figuras míticas, aparecendo em uma grande quantidade de episódios da mitologia. Foi uma das deusas mais representadas na arte grega e sua simbologia exerceu profunda influência sobre o pensamento grego, em especial nos conceitos relativos à justiça, à sabedoria e à função civilizadora da cultura e das artes, cujos reflexos são perceptíveis até nos dias de hoje em todo o ocidente. Sua imagem sofreu várias transformações ao longo dos séculos, incorporando novos atributos, interagindo com novos contextos e influenciando outras figuras simbólicas; foi usada por vários regimes políticos para legitimação de seus princípios, penetrou inclusive na cultura popular, sua intrigante identidade de gênero tem sido de especial apelo para os escritores ligados ao feminismo e à psicologia e, por fim, algumas correntes religiosas contemporâneas voltaram a lhe prestar verdadeiro culto.


O nome Atena, cujo significado é desconhecido e possivelmente tem uma origem asiática, é a versão portuguesa do grego ático Αθηνά, Athēnā, um nome que também era encontrado em outras variantes: Aθηναία, Athēnaia; Aθηναίη, Athēnaiē (no grego épico); Aθήνη, Athēnē (no grego jônico); Aθάνα, Athana (no grego dórico). Também era conhecida como Palas Atena (Παλλάς Αθηνά). Tem sido objeto de longa disputa acadêmica se a cidade de Atenas, da qual era a padroeira, tomou seu nome da deusa ou se foi a cidade que lhe emprestou seu nome. Em vista da ocorrência comum de sufixos "ena" para a denominação de localidades, é possível que a última hipótese seja a verdadeira. O primeiro registro conhecido do nome da deusa foi encontrado em Knossos, em uma tabuleta em Linear B, a antiga escrita dos povos micênicos usada entre os séculos XV a.C. e XII a.C. Ali ele aparece como a-ta-na po-ti-ni-ja, que tem sido traduzido como "Senhora de Atenas"[2] ou "Senhora Atena".[3] Para os atenienses ela era mais do que uma das muitas deusas do panteão grego, era "a" deusa, he theos. O significado do nome Palas é obscuro, às vezes é traduzido como "donzela", outras como "aquela que brande armas", e pode ter também uma origem não-grega.

Uma tradição relatada pelo Pseudo-Apolodoro conta que o nome Palas pertencia originalmente a uma filha de Tritão, uma divindade marinha por sua vez filho de Posídon e Anfitrite. Ambas teriam sido criadas juntas por Tritão e, compartilhando de um caráter belicoso semelhante, passavam o tempo entretidas em atividades militares, o que certa vez acabou por conduzi-las a uma disputa. Estando Palas prestes a desferir um golpe sobre Atena, Zeus interveio distraindo-a com sua aegis, no que Atena, aproveitando o lapso, feriu-a de morte. Extremamente entristecida com o sucedido, Atena modelou uma estátua com as feições de Palas, a que chamou de Paládio, e a envolveu com a aegis que lhe havia precipitado a morte, instalando a obra ao lado do trono de Zeus, rendendo-lhe honras e tomando o nome da amiga como uma homenagem. Mais tarde Electra, perseguida por Zeus, buscou refúgio junto a esta estátua, mas Zeus arremessou-a sobre a terra, onde Ilus, vendo-a cair diante de si, tomou isso como sinal divino, fundando no local a cidade de Tróia e preservando a estátua em um santuário. Também foi dito que ela adotara o nome do gigante alado Palas, a quem ela matou por ele ter atentado contra a sua virgindade. Depois disso ela o teria esfolado, fazendo da pele a sua aegis, arrancado suas asas para atá-las aos seus próprios pés e assumido o seu nome, pelo que sua façanha seria imortalizada.

Epítetos
Na vasta região em que Atena foi cultuada recebeu uma variedade de epítetos. Segue uma lista incompleta, excluindo-se também os simplesmente toponímicos: Aithyia, a que mergulha, associado à sua função de instrutora nas artes da navegação e construção de navios; Agelkeia, líder ou protetora do povo; Agoraia, protetora das assembléias; Alalkomenêïs, poderosa defensora; Alkis, a forte; Amboulia, possivelmente significando aquela que atrasa a morte; Anemôtis, a que domina os ventos; Areia, guerreira; Arkhegetis, fundadora; Axiopoinos, vingadora; Chalkioikos, a que tem uma casa de bronze; Chalinitis, a que domina os cavalos através das rédeas; Erganê, trabalhadora, associado à sua função de instrutora da humanidade em todos os trabalhos manuais e artísticos; Hippia, equestre, domadora de cavalos; Hygieia, deusa da saúde; Mêchaneus, habilidosa em invenções; Nikê, vitoriosa; Paiônia, curadora; Parthenos, virgem; Polias ou Poliouchos, protetora das cidades; Promakhos, campeã ou aquela que guerreia na vanguarda; Sôteira, salvadora; Tritô, nascida da cabeça; Xenia, protetora dos estrangeiros e patrona da hospitalidade.


Origens
A sua citação em uma tabuleta em Linear B atesta que Atena estava presente entre os gregos em uma data muito antiga, antes mesmo de a civilização grega tomar a forma pela qual se tornou célebre. Diversos pesquisadores têm tentado traçar as origens de seu culto, mas nada pôde ser provado conclusivamente; ele pode ter derivado da adoração da Deusa Serpente ou da Deusa do Escudo da civilização minóica, ou da Grande Mãe dos povos indo-europeus, ou ser uma importação diretamente oriental, a partir da identificação de alguns de seus principais atributos primitivos, a guerra e a proteção das cidades, com os de várias outras deusas cultuadas no Oriente Próximo desde a pré-história. Sua história entre os gregos até o fim da Idade das Trevas é de difícil reconstrução, mas é certo que quando surgem as primeiras descrições literárias sobre Atena, no século VIII a.C., seu culto já estava firmemente estabelecido não só em Atenas, mas em muitos outros pontos da Grécia, como Argos, Esparta, Lindos, Lárissa e Ílion, geralmente lhe atribuindo uma função de protetora das cidades e especificamente das cidadelas, tendo um templo no centro das cidadelas muradas, sendo por extensão uma deusa guerreira.


Acima, o nascimento de Atena, pintura em trípode grega, c. 570-560 a.C. Museu do Louvre.

Encontra-se na Teogonia de Hesíodo o mais antigo relato conhecido sobre o nascimento de Atena, apresentado em duas variantes. Na primeira Atena seria fruto da união de Métis e Zeus. Métis, uma personificação da prudência e do bom conselho e a mais sábia dos imortais, foi a primeira esposa de Zeus, o rei dos deuses. Entretanto, sendo avisado por Gaia, a terra, e Urano, o céu, de que o filho que haveria de nascer de Métis após Atena seria mais poderoso que o pai, e ele por conseguinte corria o risco de ser destronado, assim como ele destronara seu próprio pai Cronos, Zeus através de um estratagema enganou Métis e a engoliu. Não obstante, ela gerou Atena no ventre de Zeus, que a deu à luz a partir de sua cabeça às margens do rio Tritão, já completamente adulta e armada. Na segunda versão Hesíodo disse que Atena fora filha exclusivamente de Zeus, nascendo logo após seu casamento com Hera, o que teria sido causa de um confronto com a esposa. Ela, injuriada, também deu nascimento a um filho, Hefestos, sem unir-se ao esposo.

Narrativas mais tardias detalham as circunstâncias do seu nascimento, dizendo que antes de Atena nascer Zeus começou a sentir uma insuportável dor de cabeça, e pediu que Hefestos lhe abrisse o crânio com um machado. Outros relatos colocam Hermes, Prometeu ou Palamon como assistentes neste parto incomum. Também foi apresentada como filha do gigante Palas. Uma versão do mito cultivada na Líbia a colocou como filha de Posídon com a ninfa Tritonis, e em certa ocasião, zangada com o pai, teria pedido para Zeus adotá-la. Sua conexão com o rio Tritão fez com que cada cidade onde corresse um rio com este nome, e eram muitas, reivindicasse ser o seu local de nascimento. A rápida expansão do seu culto por uma vasta região explica as variantes sobre o seu nascimento e as múltiplas histórias míticas onde ela tomou parte, que certamente incorporam lendas locais.




Seus atributos
Como deusa da guerra, Atena é a perfeita antítese de Ares, o outro deus encarregado desta atividade. Atena é dotada de profunda sabedoria e conhece todas as artes da estratégia, enquanto que Ares carece de todo bom juízo, prima pela ação impulsiva, descontrolada e violenta, e às vezes, no calor do combate, mal sabe distinguir entre aliados e inimigos. Por isso Ares é desprezado por todos os deuses, enquanto que Atena é universalmente respeitada e admirada. A falta de sabedoria de Ares explica sua invariável derrota sempre que confrontou Atena. O princípio simbolizado por Ares é por vezes mais necessário quando se trata de desbravar um território hostil e fundar ou conquistar uma cidade, ou quando a violência é absolutamente incontornável diante de uma situação desesperada, mas é incapaz de criar cultura e civilização e manter a sociedade numa forma estável, integrada e organizada.
Este papel cabe a Atena, a deusa da sabedoria, da diplomacia, da coesão social - lembre-se que ela é a protetora por excelência das cidadelas, o núcleo vital das cidades -, instrutora nas artes e ofícios manuais produtivos, especialmente o trabalho em metal e a tecelagem, que enriquecem o espírito e possibilitam a continuidade da vida em comunidade.
Ela torna a guerra um instrumento social e político submetido ao intelecto, à disciplina e à ordem, antes do que um produto da pura barbárie e das paixões irracionais. As próprias derrotas repetidas de Ares diante de Atena, seu atributo como domadora de cavalos e, na disputa pela Ática, sua vitória contra Posídon, um deus conhecido por seu caráter turbulento, vingativo e irascível, confirmam a submissão da força bruta à soberania e ao equilíbrio da justiça e da razão. Entretanto, quando decide lutar nela não se encontra nenhuma hesitação ou fraqueza, e sua simples presença pode bastar para afugentar o inimigo.



Orestes entre Atena, uma Fúria e Apolo. Pintura em kratera, c. 330 a.C. Museu Britânico.









Oficina de Fídias: Atena e Hefestos, relevo do Partenon, c. 447–433 a.C. Museu Britânico.









Na qualidade de guerreira Atena é invencível e pode ser tão implacável quanto Ares, mas isso não a priva de traços mais doces, o que Ares não possui. Vários episódios do seu mito a mostram em relações afetuosas com seu pai e com os seus protegidos, e sua fidelidade e devoção podem ser profundas. Ela tem ainda um inigualável senso de justiça e, como a virgem divina, de pureza, como provou várias vezes: puniu personagens tomados pela húbris ou que profanaram seus templos, protegeu donzelas prestes a serem violadas e foi dura contra o comportamento indigno dos pretendentes de Penélope, além de ter corrigido várias injustiças, como quando devolveu a vida a Perdix que fora morto por seu tio sob o único motivo da inveja, ou quando num julgamento público em Atenas seu voto encerrou a maldição que caíra sobre Orestes, perseguido pelas Fúrias por conta do matricídio que cometera sob uma ordem direta de Apolo.
Por esta razão Atena é considerada a divindade tutelar dos julgamentos e dos júris, e a fundadora mítica das cortes de justiça ocidentais, substituindo a tradicional punição por vingança pela penalidade baseada em princípios consagrados num sistema legal formalizado.

É possível que em tempos remotos Atena tenha sido uma deusa da fertilidade e tido o caráter maternal de todas as Grandes Mães da pré-história, sendo identificada com a rocha da Acrópole de Atenas que, como em regiões da Anatólia (uma das possíveis rotas de entrada dos povos indo-europeus na colonização primitiva da Grécia), se identificavam com as montanhas de suas cidades onde se erguiam as cidadelas. Ela pode ter tido ainda uma virgindade renovável anualmente, como se dizia que Hera possuía, um traço ligado aos ciclos naturais de renovação sazonal, mas de qualquer modo em tempos clássicos sua virgindade perene se tornou canônica. Ainda que no mito clássico a relação entre Atena e Hefestos no nascimento de Erictônio tenha sido conflitiva, eles aparecem frequentemente juntos na arte grega, ambos são considerados co-instrutores da humanidade nas artes, e em vários lugares dividiam um culto deste tempos remotos, o que levou Cook a sugerir que em uma fase primitiva, não documentada, Hefestos pode ter sido um verdadeiro esposo de Atena. Em algumas interpretações do mito pelos apologistas da época a deusa foi-lhe de fato dada em casamento, como prêmio por ele ter livrado Hera de um trono que a prendia (feito pelo próprio Hefestos), ou por ter criado o raio para Zeus usar como arma, ou por ter ajudado no parto da deusa, embora em nenhuma das versões a união realmente se consumasse.
Platão fez uma descrição do elo entre Atena e Hefestos, o deus das forjas e das artes metalúrgicas, dizendo que eles possuem a mesma natureza, primeiro porque, como irmã e irmão, possuem o mesmo pai, e segundo, porque seu mesmo amor pelo conhecimento e artes os leva para os mesmos fins. Os dois deuses compartilhavam da região de Atenas e ela com razão deveria pertencer a eles, sendo naturalmente adequada para a virtude e o pensamento. Tendo instalado ali como habitante um povo respeitável, eles organizaram a cidade de acordo com os seus desejos. Atena e Hefestos dividiam culto num templo na acrópole e outro na cidade baixa, num bairro habitado por artífices. Daí que Atena se tornou a padroeira dos carpinteiros, dos tecelãos, dos construtores de navios e carruagens, dos ceramistas, e atribuía-se a ela a invenção das rédeas para domar cavalos, do carro de guerra, do arado e da flauta. Todas essas atividades envolviam habilidade manual e inteligência prática, algumas traziam em si um toque de magia, exigiam um definido senso estético que era incluso no domínio da sabedoria, e definiam parte de seu caráter como doméstico, familiar e civilizador. Na Ilíada ela aparece dizendo que é a sabedoria e não a força bruta o que produz um bom artesão na madeira. Considerava-se a habilidade de construir um navio ou carruagem como sendo em essência a mesma que fazia um bom piloto ou cavaleiro, envolvendo os dons da atenção concentrada, disciplina, destreza física/manual e capacidade de estabelecer metas e segui-las até o fim. Da mesma forma o conceito se aplicava aos tecelãos, lavradores e ceramistas.

Tendo como um de seus símbolos a oliveira, que oferecera como seu presente à cidade de Atenas em sua fundação, Atena era uma imagem da perenidade e vitalidade da pólis, e protetora de um dos seus produtos agrícolas mais importantes, o óleo de oliva, e tornou-se uma poderosa imagem de esperança e renovação para os gregos especialmente depois da guerra com os persas, quando a antiga oliveira sagrada da acrópole, incendiada no saque da cidade pelos inimigos, voltou a brotar. A ela era consagrado um olival na área da Academia, que produzia o óleo oferecido como prêmio aos vencedores dos jogos atléticos de seus festivais. A oliveira era ainda um dos indicativos da sua ligação com a fertilidade da terra e com a agricultura, aspectos que estavam por sua vez ligados ao lado feminino da natureza, o que conduz a outra das ambiguidades de Atena a respeito da dinâmica dos princípios da geração e da virgindade, do masculino e do feminino, em sua própria identidade, que era fortemente andrógina e paradoxalmente encontrava escasso paralelo na sociedade grega e em especial nas mulheres de seu tempo. Para aqueles gregos era fundamental que suas filhas permanecessem virgens até o casamento, mas era também fundamental que depois elas fossem capazes de constituir família gerando prole. Atena repudiava desta forma valores básicos da sociedade grega. Guerreira, altiva e independente, também contrastava com o hábito da época que mantinha as mulheres em grande parte submissas ao homem, confinadas a atividades domésticas e delas exigia modéstia, mas por outro lado era a patrona da tecelagem, da fiação e do bordado, artes eminentemente femininas. Sua maior aproximação da maternidade foi a adoção e educação de Erictônio, e por isso foi chamada de kourotrophos, a que cria os homens jovens, mas também isso a conduziu ao contato com o princípio viril como protetora de heróis. Mesmo a versão que a dava como filha de Métis, fazendo dela, assim, a receptora e transmissora de uma forma feminina de sabedoria, com o passar dos séculos foi amplamente sobrepujada pela versão que excluía uma mãe em seu nascimento, novamente ligando-a ao mundo masculino, e mais quando, no período clássico, o conceito de sabedoria, com a qual ela era identificada, deixou de significar uma habilidade que tinha muito um caráter prático, passando para o domínio do pensamento filosófico abstrato, também um apanágio dos homens.
Em uma ode de Píndaro se encontra uma descrição de Atena como aquela que dissolve o poder demoníaco da Grande Mãe ctônica e torna o princípio feminino seguro e acessível às atividades e instituições masculinas da pólis, possibilitando assim a continuidade do modelo ateniense de civilização.


O mito de Atena exerceu uma influência decisiva no estabelecimento da identidade e da própria sociedade atenienses, e por extensão em toda a cultura da Grécia Antiga. Formou-se entre os atenienses uma idéia de que sua cidade era amada pelos deuses a partir da disputa entre Atena e Posídon, significando que eles tinham o desejo de se estabelecer preferencialmente ali.
 Mesmo tendo sido derrotado, Posídon simbolizou, através da fonte de água salgada que fizera nascer, em algumas versões um verdadeiro mar, o futuro poderio marítimo dos atenienses.
A fertilização da terra ática pela semente de Hefestos foi outro elemento formador nesta noção, tornando o território sagrado, inaugurando com Erictônio uma dinastia de reis de origem pretensamente divina, e fundando com isso um povo que podia reivindicar para si uma prestigiosa autoctonia. Religião, mito e política estavam inextrincavelmente ligados, havia legislação vinculando inúmeros aspectos da vida religiosa à prática cívica a ponto de fundirem-se Religião e Estado, e todo o mito de Atena foi extensivamente usado no discurso político da época para dar forma e fixar o modelo da sociedade ateniense e, com o pretexto de "civilizar" os estrangeiros, substanciou as suas pretensões imperialistas sobre os bárbaros e mesmo sobre seus vizinhos gregos. Os oradores chegaram ao ponto de deduzir a democracia do princípio da autoctonia ateniense, equiparando igualdade política (isonomia) a igualdade de origem (isogonia). Segundo Loraux, desta forma a lei (nomos) era estabelecida sobre o fundamento da natureza (physis), e o povo (demos) com isso legitimava seu poder: imbuindo a coletividade com um alto nascimento (eugenia), os cidadãos autóctones eram todos iguais porque era todos nobres - entenda-se "todos" como apenas os que tinham cidadania ateniense. Dando um passo além, os oradores orgulhosamente sobrepunham Atenas a todas as outras pólis, que para eles constituíam uma heterogênea reunião de intrusos estabelecidos num território que imaginavam seu por direito divino. A índole guerreira de Atena, destacando suas qualidades viris, associada à sua virgindade perpétua, jamais "entrando na casa de um homem", fazia com que ela jamais abandonasse a "casa de seu pai", permanecendo sob a direta influência de Zeus, o patriarca por excelência, e tal fato se tornou uma das bases míticas do patriarcado local e da primazia do homem sobre a mulher na sociedade e na política ateniense.
Também o mito de Teseu foi incorporado ao de Atena, dentro de um viés político, pelo fato de que ele era considerado o unificador da Ática, sendo celebrado ao lado de Atena tanto no festival da Synoikia como nas Panatenaias.