Idade Média
Embora tidos como verdadeiros seres vivos, cuja existência era real, desde o século VI a.C. se faziam críticas às descrições literárias dos deuses engajados em comportamentos violentos ou de moralidade duvidosa, como muitas vezes apareceram em Homero e Hesíodo, e iniciou-se uma tradição de se interpretar suas ações numa leitura alegórica, como uma alternativa à interpretação puramente histórica, fundando-se a mitografia. Os mitos foram racionalizados e entendidos como alegorias de forças da natureza e do cosmos, ou como movimentos da alma humana, ou se os relacionavam a determinadas partes e funções do corpo. Atena materializava-se na sabedoria opondo-se a Ares, expressão da insensatez; Zeus se tornava a mente, enquanto que Atena era a habilidade artística.[119] Ela também estava relacionada ao crânio, de onde nascera, e à respiração, que se acreditava estar ligada à função do pensamento, e relatos antigos referem sua associação, em localidades isoladas, ao céu claro, à aurora, ao éter, ao trovão, ao relâmpago, aos olhos, ao sol ou à lua.
Na era romana se popularizou uma outra interpretação, chamada evemerismo, que fazia dos deuses homens e mulheres históricos, cujos feitos haviam sido magnificados pela tradição, acabando por serem divinizados. A abordagem alegórica dos textos dos poetas canônicos e dos mitos que eles relatavam frutificou ao longo de vários séculos, até que o Cristianismo entrasse em cena, causando uma dissociação entre os métodos mitográficos e sua substância e objeto, com duas consequências de largo alcance. A primeira, dizendo respeito aos métodos, nasceu das acirradas controvérsias teológicas entre judeus e cristãos e entre cristãos e pagãos, permitindo aos apologistas adaptarem para o Judaísmo ou o Cristianismo o método de racionalização dos mitos clássicos, preservando-os para a mitografia medieval, quando as aparentes imoralidades do próprio Velho Testamento foram postas em evidência e alegorizadas. O segundo resultado, relativo ao conteúdo dos mitos, foi imprevisto pelos escritores cristãos, pois ao atacarem o Paganismo na tentativa de erradicá-lo - no que foram por fim bem sucedidos -, comparando-o à religião pagã, preservaram para a posteridade muitas passagens dos mitos clássicos e suas interpretações pelo simples fato de as descreverem. Por outro lado, a corrente evemerista foi aproveitada pelos escritores cristãos para atacarem o politeísmo como um erro doutrinal básico.Atena não foi exceção na campanha difamatória cristã. Como exemplo, Clemente de Alexandria criticou a multiplicidade de versões de seu mito como uma evidência da alegada falsidade do Paganismo, e condenou a imoralidade de uma das versões onde ela aparecia como filha do gigante Palas, tendo depois assassinado seu pai e o esfolado para fazer com a pele sua couraça. Outros escritores distorceram ainda mais esse episódio transformando-o em uma história de incesto e mutilação.
Em 391 o imperador Teodósio I baniu oficialmente o Paganismo, mas por algum tempo isso teve relativamente pouco efeito sobre o vasto acervo acumulado de arte pagã, e embora a tendência tenha sido de entregar templos e decorações à sua própria sorte, entrando eles em um estado de progressiva degradação, até o século VI houve tentativas de se preservar várias edificações e obras importantes como um testemunho da antiga glória do Império Romano, e, mais do que isso, de fato os princípios formais da arte pagã foram adotados em larga medida, mudando-se apenas os temas, para a fundação da arte cristã. Mas dali em diante a política oficial mudou, e então toda a arte pagã sofreu um destino inglório, e a depredação de templos, esculturas, pinturas e relevos se tornou generalizada. Mármores foram transformados em material de novas construções, bronzes foram fundidos para confecção de armas, e obras em ouro e prata foram também fundidas para recuperação do material precioso, perdendo-se desta maneira a maior parte da iconografia antiga de Atena.
Também passou a ser uma protetora das cidades, e uma crônica do século VII afirma que habitantes de Constantinopla, então ameaçada por inimigos, a viram a aparecer sobre seus muros brandindo uma lança e exortando o povo à resistência. Provavelmente essa assimilação foi enfatizada quando se transferiram as estátuas de Fídias que estavam na Acrópole de Atenas para a capital bizantina.
A partir do relato de seu nascimento da cabeça de Zeus, símbolo da mente divina, Atena permaneceu viva na tradição gnóstica e em outras correntes de esoterismo cristão medieval - herdeiras da filosofia clássica e helenística e inspiradas em textos bíblicos como o Cântico dos Cânticos, o Livro da Sabedoria e o Eclesiastes - transformada em Mater Magna (Grande Mãe) ou, mais comumente, Sophia, a sabedoria divina, personificações do aspecto feminino e materno de Deus e tidas como o poder criativo por excelência, o verdadeiro demiurgo do universo e o objeto primordial do desejo humano.
Embora o conceito esotérico de Sophia tenha sido combatido pelo Cristianismo ortodoxo, especialmente por sua alusão à maternidade e feminilidade de Deus, não obstante reapareceu constantemente na literatura mística medieval não só cristã, mas alimentando também a simbologia da Cabala judaica.
Outro exemplo foi a transferência de atributos de Atena para os retratos de algumas das primeiras imperatrizes bizantinas, continuando um costume que havia sido iniciado durante a sincretização de Atena e Minerva em Roma. A imagem de Atena/Minerva foi aplicada ademais a pesos de balanças romanas e depois bizantinas, alguns deles de refinado acabamento artístico, usados por mercadores cristãos até o século VII e possivelmente o século VIII, fato justificado por uma expansão do seu atributo da sabedoria: sabedoria → julgamento justo → medição exata. Há com isso boas razões, como afirmou McClanan, para dizer que Atena sobreviveu como um influente símbolo cultural depois da supressão do Paganismo.

Por volta dos séculos IX-X escritores cristãos passaram a dar ao legado da antiguidade pagã uma apreciação mais positiva, aplicando-lhe uma leitura alegórico-moralizante impregnada de Estoicismo e Neoplatonismo e inserida dentro da órbita cristã, ainda que se perpetuasse a prática da condenação do Paganismo como um erro fundamental. Escoto Erígena, nascido no século IX na Irlanda, que na época era a única região européia fora da Grécia onde ainda se estudava grego, traduziu várias fontes originais e descreveu Atena como virtuosa e aquela cuja sabedoria está em perpétua renovação, sem corromper-se jamais. Remígio de Auxerre, também da escola irlandesa, influenciado diretamente por Erígena e autor de numerosas glosas e comentários sobre os clássicos, focou atenção sobre as deusas grecorromanas, em particular sobre Atena, enaltecendo longamente a sua sabedoria que não conhece mácula ou termo, a sua virgindade, a sua completude, a sua integridade e sua descendência de Zeus, segundo os estóicos a Alma do Mundo. Para ele Atena representava a memória e o engenho, todos incendiados pelo fogo divino e eterno, a sabedoria mais pura e mais alta, apresentando a deusa como uma intermediária entre o céu, imagem do macrocosmo, e a terra, o microcosmo, expressando na terra aquela sabedoria sob a forma das artes. O caráter guerreiro de Atena era um sinal da força da sabedoria, sugerindo que o conhecimento é o melhor caminho para a paz. Ambos os escritores trabalharam sobre o livro De nuptiis, de Martianus Capella, um escritor pagão do século V que foi um dos primeiros organizadores do sistema das artes liberais, tão importante para a educação medieval, dando um lugar destacado a Atena como senhora da sabedoria, à qual serviam todas as artes. Com seus comentários Erígena e Remígio, em linhas gerais repetindo a abordagem de Capella, introduziram Atena como uma figura simbólica de relevo no pensamento cristão. Levando as idéias de Remígio adiante, o Segundo Mitógrafo do Vaticano, um escritor anônimo que pode ter sido o próprio Remígio ou alguém de seu círculo, apresentou Atena como um ideal de vida monástica, cujas ambiguidades sexuais transcendiam a problemática do gênero singular.
No século XI Guillaume de Conches expandiu e aprofundou o gênero mitográfico, sendo o primeiro a estudar de forma consistente e integrada os deuses e o problema da sexualidade humana dentro da vida de contemplação religiosa, tentando aproximá-los num contexto filosófico coerente que levava em séria conta a questão do corpo feminino. Ele analisou de maneira original o episódio do concurso de beleza de que Atena participou centrando-se no efeito da frustração do desejo sexual masculino, e entendendo o corpo sexualizado da mulher como um signo cultural, isso numa época em que o monasticismo estava em alta, com seus ideais de negação do corpo, abstinência e racionalização do desejo, considerados necessários para os objetivos espirituais. Para ele Atena era a imagem da vida contemplativa, a mais elevada, e Páris, o juiz do concurso e símbolo da vontade humana, como a maioria dos homens, entregando o prêmio a Afrodite, a vida de volúpia, faz uma escolha que no fundo lhe é prejudicial.
Na mesma época os estudos clássicos já estavam bastante avançados em várias partes da Europa, como no Império Bizantino - onde surgiu uma espécie de culto literário dos antigos mitos, sendo aceita consensualmente, e já sem ressalvas piedosas contra o Paganismo, a leitura das narrativas pagãs como símbolos imbuídos de verdades profundas, válidos dentro da cultura cristã, e capazes de explicar vários aspectos do mundo - mas especialmente no norte da França, através da atuação das primeiras universidades, onde se lançou as bases da filosofia humanista, de larga influência subsequente no pensamento renascentista e na arte do período.
Com essa popularização da tradição pagã, escassamente distinguíveis, Atena ou Minerva começaram a reaparecer no final da Idade Média em representações literárias e visuais em vista do seu potencial simbólico.
Pierre Bersuire, engajado na cristalização do ideal cavaleiresco, em seu Ovídio Moralizado mostrou Atena como aquela que concede ao rei, o perfeito cavaleiro, as graças e virtudes necessárias para o estabelecimento de uma nova Idade Dourada, armando-o com o escudo cristalino da prudência, o espírito cristão e a iluminação espiritual. Bersuire foi de influência sobre Chaucer, que a apresentou em seus Contos de Canterbury como harmonia, unidade, fortaleza, a sabedoria que traz a paz de Deus e como a paz que emerge do conflito; Robert Holcot reiterou sua ligação com as artes liberais, louvou o caráter incorruptível de sua sabedoria e disse que ela era vestida por três túnicas: a gramática, a retórica e a dialética. Boccaccio escreveu que Minerva possuía um elmo para significar que os conselhos de um homem sábio permanecem ocultos e bem defesos; usava uma couraça já que o homem sábio está sempre precavido contra os golpes da Fortuna, e era armada com uma longa lança para significar que as ações do homem sábio têm um longo alcance, e suas invenções eram um benefício para a civilização. Como um homem de seu tempo, Boccaccio resistia em acreditar que tantas qualidades pudessem ser encontradas em uma mulher real, e considerava até potencialmente perigosa uma mulher que exibisse dotes intelectuais publicamente, ainda que louvasse as que o faziam no círculo privado de seus lares, mas não hesitava em aplaudir sua exibição pelo homem, como fica explícito em sua repetida alusão ao homem sábio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.